Artigo de Ighor Branco: As eleições municipais de 2020 podem ser adiadas

Antes de falar de adiamento, é importante falar dos fatos, ou melhor, dos pressupostos, para se poder pensar nos impactos de todas variáveis que giram entorno do processo eleitoral. O Corona Vírus é o que se chama na economia comportamental de Cisne Negro. Nada mais é que um evento aleatório, raro, imprevisível e de grande proporção, que entra no hall de um contexto pré-estabelecido e modifica seu funcionamento. Neste caso, o contexto analisado é o eleitoral.

Neste momento, a maioria da população não está preocupada com política. Quero dizer, com a dinâmica eleitoral, com as trocas ou manutenções de cadeiras. A maioria da população está preocupada com o novo vírus, desconhecido e perigoso.

A maioria é favorável a ficar, e está, nesse momento, em casa; vide, a pesquisa recente do Data Folha que aponta que 73% dos brasileiros aprovam medidas contra o Corona Vírus.

A maioria também se preocupa com os impactos econômicos que isso pode trazer. Muitos, sobrevivem de trabalho diário informal, ou não tem garantia na manutenção dos seus empregos, mesmo que fixos. Sem falar em tantos outros que já vivem de assistência ou estão desempregados. O cenário não é nada animador.

Diante disso, como falar de eleições? Repito, a maioria da população não está preocupada com a dinâmica eleitoral. As pessoas desejam soluções rápidas, eficazes, e que sejam o mínimo nocivas para a continuação da vida cotidiana em sociedade.

Diante disso, como falar de eleições? Difícil. Os gestores, ou melhor, os ocupantes de cargos, sejam eles do poder executivo ou legislativo, tem responsabilidade de sanar essas aflições da população. Ou ao menos, de aparecer, de tentar sanar. O posicionamento, junto com medidas concretas, é crucial nesse momento.

Todos devem se posicionar. E, de maneira geral, todos estão fazendo isso. O descaso ou a indiferença será ferozmente cobrado, e o gestor que não fizer, tendo um antecedente histórico de avaliação positiva ou negativa, irá sofrer.

No entanto, nem só penitências ou responsabilidades a posição de poder traz nesse momento. Os políticos, com mandato, têm hoje uma oportunidade. Sim, oportunidade. Oportunidade de se posicionar com vigor, de tomar para si as rédeas das decisões, de falar, de aparecer, de gerar comoção. Com isso, digo, que independente de adiamento ou não, os prefeitos e vereadores, ganharam um fôlego a mais.

Aos candidatos desafiantes, ou seja, de oposição, cabe o papel de denunciar alguma possível falha de gestão de crise ou comunicação, além de oferecer informação a mais (talvez, já saturada), alertar, e até, comover. No entanto, quando se está num fogo cruzado, as pessoas procuram as trincheiras que já existem e conhecem. Independente da ideia ou ideal de trincheira ser outro. Esta hoje me serve, se me permite ter o básico para manter a minha vida. De maneira semelhante, funcionará na política.

Cabe saber se os gestores saberão ser trincheiras, prover segurança (econômica e de saúde), parecer confiáveis e sólidos. Quem souber fazer isso, pode virar a chave do pleito eleitoral ao seu favor ou garantir ainda mais seu êxito. Vale lembrar, ainda, que o discurso de “não estou preocupado agora com política, minha preocupação é com o povo” é muito forte. Candidatos de oposição tem objetivo claro: ascender. Mas, talvez, nesse momento, as pessoas não queiram que as coisas mudem, e sim, voltem a ser como eram, para só então, pensar em mudança.

O Corona Vírus já tem impacto nas pré-campanhas, os meios digitais vão ser mais utilizados; as pessoas, teoricamente, poderão se informar mais. Independente de adiamento ou não, o Cisne Negro já gerou impacto nas eleições municipais de 2020. Resta saber se os políticos saberão usar a favor.

Ighor Branco, Estudante de Ciência Política da UFPE e Analista de Dados no Instituto Conecta de Pesquisas.

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